Carta a Jorge Solla

Jorge-SollaSenhor Deputado Jorge Solla (ok, pessoal, eu sei que ele não vai ler, e, ainda que lesse, como todo petista típico distorceria tudo. Mas, quem sabe? vai que  alguém que tenha visto o texto dele pode ter algum esclarecimento com este. E, afinal, porque é difícil ler tantas bobagens e ficar calado.)

Uma mensagem atribuída ao senhor, e que contém acusações dirigidas aos médicos, ao mesmo tempo em que pede votos para a candidata Dilma, tem sido divulgada. Tais acusações não são nada menos do que criminosas e irresponsáveis.

Não desejo reproduzir suas palavras integralmente aqui. Quem quiser, que procure a mensagem, repleta de mentiras. Mas deixo um trecho representativo: “Todas as profissões de saúde têm o dever se confrontar a coorporação médica e, com isso, defender sua autonomia, a qualidade da assistência prestada e o direito à saúde da população, votando em Dilma 13.”

É inaceitável que os médicos sejam vítimas de declarações tão sórdidas, que os foram direcionadas porque tiveram a coragem e o discernimento de criticar o atual governo, sabidamente corrupto e incompetente. Que trata a saúde da população com desprezo, já que não realizou melhorias reais no SUS. Um governo que, lamentavelmente, defende a importação de profissionais que sequer comprovaram qualificação técnica para o exercício da profissão; e que se utiliza de argumentos falaciosos para defender o indefensável. A administração do PT, na área da saúde, lançou mão (com o “Mais Médicos”) de uma medida populista para iludir as pessoas mais simples, e que ao mesmo tempo serve para enviar fortunas para uma ditadura. O descaso com a saúde é evidente. Faltam medicamentos e materiais básicos. Os hospitais públicos estão sucateados, não há leitos para internação. A qualidade do atendimento ofertado no SUS é muito desigual, em comparação com o atendimento na rede privada. Os pacientes não têm acesso a muitos tratamentos essenciais, na rede pública. É impossível fechar os olhos a esta realidade.

É gravíssimo induzir, publicamente, o pensamento de que os médicos tenham algum interesse na desassistência à população. Estes jamais seriam os objetivos de quem trata a vida com reverência. Ao contrário do partido com as mãos imundas de quem desvia dinheiro público para interesses escusos.

Quem reage de forma agressiva e antiética é o PT. Quem usa de argumentos falsos e acusa os adversários de mentiras, sem o menor pudor, é o PT. Quem age de forma irresponsável e espalha boatos sem fundamento é o PT. Qualquer um que contrarie este partido se torna alvo deste método perverso.

Os médicos não colocam  interesses mesquinhos acima da vida (se, infelizmente, existe um ínfima minoria de médicos que não respeita os preceitos éticos da nossa classe, não os utilize para nos representar, em uma generalização tão grosseira) .

Suas escolhas são  movidas pelo desejo de mudança, e lutam pela melhora urgentíssima da saúde, para todos os brasileiros. Com melhor financiamento e melhor gestão. Queremos, como cidadão brasileiros,  que todos os profissionais de saúde sejam valorizados, e que tenham condições adequadas de trabalho. Queremos que todos os pacientes tenham acesso à saúde de qualidade, e que atualmente não existe.

Parem de destilar rancor e ódio entre as pessoas. Sua mensagem tenta recrutar os demais profissionais de saúde, pedindo literalmente por um confronto com os médicos, com o único interesse de ganhar votos entre esses outros profissionais. Pois eu os vejo também em uma área de atividade muito difícil, e os respeito enormemente. Merecem (e a palavra merecimento aqui é extremamente bem aplicada) melhor remuneração e estrutura para o exercício de suas atividades. Parem de apenas usá-los quando essa cooptação é conveniente, e se esquecerem deles quando os senhores já estão acomodados no poder. Sabemos que na saúde pública todos os profissionais trabalham em condições precárias e sofrem com falta de recursos.

Parem também de incitar uma divisão odiosa entre ricos e pobres: enquanto paciente o ser humano é o mesmo. Tem as mesmas necessidades, requer os mesmos cuidados. Parem de estimular a crença tola de que profissionais sérios não desejam o bem da população carente. Vocês estão gerando e sustentando discriminação, um mal que está na raiz de confrontos seculares e violentos em todo o mundo.

Os médicos são uma classe honrada, senhor deputado. São pessoas de bem, trabalhadores. Pais, mães, filhos, irmãos. Cidadãos bem informados, com o direito e o dever de escolher nossos políticos e de expressar publicamente nossas escolhas e seus motivos dignos. Ninguém precisa ter nenhum motivo de se envergonhar em apoiar publicamente um candidato que consideram (consideramos) mais capaz e honesto. O movimento neste sentido é legítimo. E não deixará de ser apenas porque nos opomos à situação atual.

Os médicos não estão raivosos, como o senhor descreveu. Estão, muito justamente, indignados. Aliás, nós brasileiros estamos.

*

Para mais informações:
“Mais Médicos” – Por que os médicos brasileiros estão indignados?

Falácias recorrentes do PT x Fatos

1. “A máfia de branco é contra o programa ‘Mais Médicos’ porque quer fazer reserva de mercado.”
Para começar, não existe “máfia de branco”. Afinal, não somos uma organização criminosa. 
Pensar que temos receio de “reserva de mercado” é absurdo, por vários motivos. O número de médicos que vieram ao Brasil pelo programa são uma fração do número de médicos brasileiros, estimados em cerca de 400.000. O “Mais Médicos” conta, portanto, com uma porcentagem muito pequena do total de médicos no país, incapaz de gerar impacto em uma lei de oferta e procura por nossos serviços. Além disso, o governo alega que os trouxe para ficar em áreas remotas, onde os médicos brasileiros não ocuparam postos de trabalho (embora o mapa de distribuição dos intercambistas contrarie essa alegação). Essa questão de “reserva de mercado” jamais existiu para nós, quanto ao “Mais Médicos”. Mas surge de forma recorrente como argumento de quem questiona a nossa indignação. Ora, qualquer médico estrangeiro sempre pôde vir para cá, e continua podendo vir. Basta revalidar o diploma.

É um mito que a prova de revalidação seja especialmente difícil, formulada de maneira a impedir a aprovação. Ela tem um grau de dificuldade adequado ao seu fim, que é provar, em nosso idioma, conhecimentos em medicina necessários para exercer a profissão. Em 2014 a mesma prova da revalidação de diploma foi aplicada (para comparação) aos estudantes do último período do curso de Medicina da UFMG, e todos os alunos conseguiram a pontuação necessária para passar na prova (embora a prova reprove mais de 90% dos alunos formados em universidades estrangeiras, incluindo as cubanas). Todos os países exigem um processo de revalidação, e em muitos países ele é bem mais rigoroso do que aqui.

Que dificuldade é essa em aceitar que uma classe esteja genuinamente preocupada com a saúde da população, se exposta a profissionais sem competência comprovada? Tem gente que não compreende que exista quem se importe com muito mais do que apenas benefícios pessoais. Qualquer profissional sério, de qualquer área, se preocuparia ao ver serem despejados em seu país supostos colegas que nem se sabe o que estudaram. Imaginem então em uma profissão que lida com vidas.

2. “Os médicos brasileiros não querem ir para o interior ou periferias.” 
Todo mundo sabe que muitas cidades de interior, sobretudo em regiões mais remotas, não oferecem estrutura adequada para o atendimento em saúde. É extremamente desgastante para um médico atender um paciente e não conseguir oferecer a ele o mínimo necessário, e que pode até significar a vida. Além disso, não há nenhuma garantia de estabilidade no emprego. Como querer que alguém se transfira dessa maneira e para longe, com a própria família, frequentemente com filhos pequenos? Os relatos de altos salários que às vezes aparecem são uma verdadeira isca para inocentes, pois os calotes são muito comuns e o médico simplesmente deixa de receber após poucos meses. Além disso, é usual que se tenha que fazer todo tipo de atendimento (casos em adultos, crianças, gestantes; em qualquer horário, e tudo isso naquele esquema de falta de estrutura, exames e hospitais, com alto risco de processos e maus resultados por fatores que não dependem diretamente do médico).

3. “Os médicos brasileiros são playboys/filhinhos de papai/não gostam de pobre.”
Essas atribuições tentam criar uma discriminação e um falso juízo moral baseado na condição social. É verdade que as universidades brasileiras (sobretudo em cursos com dedicação integral e com longa duração) tenham uma proporção mais significativa de estudantes que vieram de famílias com maior renda. Isso não diminui o mérito de quem estudou vários anos para se formar e trabalha duramente, independente de sua origem. É um preconceito triste como qualquer outro, que julga o valor e a qualidade do trabalho de uma pessoa tendo como base sua procedência social. Julga os próprios princípios éticos dos médicos com base em sua origem. Se faltam médicos no serviço público, é por uma série de problemas complexos, e não simplesmente porque eles “não querem atender os pobres”. Parem de jogar a culpa do lado errado.

4. “Se os médicos cubanos fizessem a prova de revalidação, não ficariam no programa.”
Bem, se vocês admitem que eles não ficariam (caso passassem na prova), é porque o programa é ruim mesmo, em termos de condições de trabalho. E restringir a possibilidade de melhoria profissional (de condições de estrutura e financeiras) para forçar as pessoas a permanecer no programa é interferir na sua própria liberdade de escolha. A verdade por trás desse argumento esdrúxulo é que interessa a Cuba – em conluio com o governo brasileiro – manter seus profissionais no programa, pois a ditadura ganha muito dinheiro com ele.

5. “Os médicos brasileiros são mercenários.” (ou, como o senhor deputado falou, querem “enriquecimento rápido” e ganhar “rios de dinheiro”)
Mercenário é o profissional que trabalha apenas pelo lucro, sem se importar com as regras, ética ou princípios da profissão. Imaginem como é desanimador um médico se esforçar, prezar pela qualidade do seu trabalho, preocupar-se com o bem estar de seus pacientes, assumir grandes responsabilidades e, ainda assim, ver este tipo de acusação.
É necessário aqui dizer o óbvio, mas que parece ignorado. Médicos são seres humanos. Têm famílias. Pagam contas. Gastam dinheiro também para a manutenção do próprio trabalho. Qualquer um considera justo receber dignamente pelo fruto de seu esforço e tempo. Chega de hipocrisia e de exploração do trabalho alheio (dos médicos e dos demais profissionais da área de saúde, como enfermeiros, fisioterapeutas e outros, que sabemos que recebem muito, muito mal). Quanto aos médicos, o SUS paga cerca de dez reais para a consulta do especialista, por exemplo.

6. “A medicina cubana é avançada.”
Este é um argumento inventado, já repetido exaustivamente, mas para o qual simplesmente não há provas. O contrário é muito mais razoável, visto que Cuba é um país muito pobre e isolado de comunicações com o exterior. Já surgiram algumas poucas notícias obscuras de tratamentos cubanos “milagrosos”, cuja eficácia jamais foi comprovada e que não são publicados em jornais médicos reconhecidos.

7. “Os médicos cubanos são mais ‘humanos’.”
Essa é uma alegação infeliz. Consideremos, antes de tudo, que há evidências muito fortes de que falta qualificação técnica para os cubanos. Já foram coletadas muitas receitas com prescrições erradas, às vezes até letais, de medicamentos básicos. Mostram erros tão, tão primários que nos levam a duvidar que quem as escreveu tenha algum conhecimento em medicina. O que é reforçado pelo fato de que os supostos médicos cubanos têm uma taxa altíssima de reprovação no exame de revalidação do diploma. Na prova de 2013 apenas 9% dos cubanos que fizeram a prova do revalida em Minas Gerais foram aprovados. 
Daí o governo lança mão do argumento da “humanidade”, com a intenção de enganar os cidadãos mais simples, e revelando o intuito populista e eleitoreiro da medida. Infelizmente, as pessoas menos instruídas não conseguem, às vezes, questionar a capacidade técnica real dos supostos médicos, e podem ser iludidas com a atenção que receberam, ainda que não tenham tido o tratamento correto… Isso é muito triste! Curioso que a alegação de “humanidade” veio da própria Dilma, que difamou os médicos brasileiros, mas *faz questão* de se tratar apenas com os tais médicos brasileiros, em hospitais particulares.

*Texto feito em comum com o médico Dr. Luis Alfredo Ribeiro – médico cirurgião geral.

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BGS, Organização e Anti-Marketing

Foto: Osmar Portilho / Terra

A Brasil Game Show – BGS – tido como o maior evento de games da América Latina aconteceu entre os dias 08 e 12 de outubro. Grandes empresas do setor estiveram presentes. Gigantes como: Sony (Playstation), Microsoft (X-Box), Ubisoft (Assassin’s Creed e Far Cry), Activision (Call of Duty, Destiny), Capcom (Resident Evil e Street Fighter), EA Sports (FIFA Soccer e NBA Live), …

Segundo alguns relatos e vídeos compartilhados nessa nossa internet de meu deus, lemos/ouvimos que alguns produtores de vídeo (os chamados youtubers) foram “convidados a se retirarem do evento” por estarem causando tumulto no local. Trocando em miúdos: esses youtubers possuem uma legião de fãs tão doentes (no bom sentido) quanto fãs de bandas de metal. Aonde quer que um deles apareça, claro tendo um aviso prévio, terá uma certa aglomeração. Gente como BRKsEDU, Monark, Jovem Nerd, Venom Extreme, Vilhena, … Cada uma destas celebridades internéticas possuem centenas de milhares e até milhões de seguidores em suas contas no grande site de vídeos.

A organização do evento estaria dando uma pulseira para quem tivesse um canal com mais que 10 mil inscritos. Muito comentário falando que eles não deveriam receber a atenção toda da BGS, mas perai! Eles que são os donos do evento e propuseram a parceria. É de uma ingenuidade achar que no maior evento de games do país não haverá uma horda de crianças/adolescentes querendo conhecer os seus ídolos. E mesmo que eles não tivessem pulseirinha, apenas entrando no evento como uma “pessoa normal” deveriam ter o mínimo de planejamento. Em eventos passados ocorreu o mesmo problema.

Entendemos que o evento não tem como atividade-fim a socialização de fãs com os youtubers, todavia lapsos estratégicos como esse não podem acontecer. Essa variável deveria estar inclusa no desenvolvimento/metodologia de trabalho da empresa organizadora. O cenário era bastante previsível. Talvez seja necessário pensar num evento fechado apenas para a mídia especializada.

Sabemos que todos tem sua parcela de culpa: youtubers, organização e o próprio público… mas algumas pessoas estão criminalizando as vítimas. Quem tem responsabilidade, que é a organização do evento, é que tem que rebolar para administrar essas intempéries. E depois do erro, não é melhor admiti-lo e corrigi-lo? É muito difícil para a organização soltar uma nota oficial pedindo desculpas pela segurança e se comprometendo a melhorar o evento no ano seguinte? O que não pode é deixar o circo (e o nome do evento) pegar fogo nas redes sociais, mesmo que por pouco tempo, e não apresentar uma outra versão dos fatos. Empresas grandes geralmente, nesses casos, se comportam como a classe política. Após o problema pequeno ocorrido, não o resolvem, brigam com a vítima. O problema cria uma proporção maior do que o acontecido e o lado dos engravatados fica em silêncio esperando a ausência de memória das pessoas.

Em dezembro, entre os dia 04 e 07, será realizado outro grande evento de grande porte sobre a cultura nem tão nerd: a Comic Con Experience. Nomes como Scoot Snyder (quadrinista), Kirk Hammett (guitarrista do Metallica) são convidados do evento. Mas estes terão estrutura necessária para que possam ter um contato com os fãs sem que tenhamos riscos com a segurança. É de se prever que alguns donos de grandes canais do youtube também irão ao evento de dezembro. Convidados ou não! Porém, certamente eles aparecerão. Fica a dica para a Comic Con Experience. De nada!

Por que eu voto no Aécio e por que eu acho que você também deveria votar e apostar nele.

aecio-x-dilma-campanha-senador-mira-ineficiencia-presidenteSem comparações desonestas com o passado ou troca de acusações agora, vou tratar aqui apenas do futuro.

Por que acho que Aécio será melhor presidente que a foi Dilma?

Por um simples motivo: Ele terá que ser o melhor presidente que o país já viu.

Aécio não tem outra escolha a não ser fazer um governo exemplar. E digo os por quês:

Com Lula na oposição ele será a maior sombra que um presidente já teve. Até 2018 Lula será a voz para tudo que um eventual governo Aécio possa infringir.

Aécio, apesar da biografia extensa, é ainda muito jovem. Ele não terá o direito de errar, porque o custo será a sua própria morte política. Ele terá que, por obrigação pessoal, fazer um governo realmente transformador, porque com no menor deslize que cometer será triturado pelas hostes petistas.

Aécio tem um super teto de vidro que só será protegido se ele tiver, de fato, excelentes números para se respaldar. Não há outra opção a não ser fazer um governo que possa ser incontestavelmente melhor do que o governo atual.

Sei dos erros que o tucano já cometeu do mesmo modo que sei dos erros que o PT  já cometeu. Mas ao PT basta replicar a fórmula que vem a ele dando sustentação no poder. Aécio terá que encontrar um caminho para brilhar, porque o futuro político dele e de todos que o apoiam, depende disso.

O PT precisa melhorar e isso até eles reconhecem, mas Aécio precisa melhorar ainda mais para ter chances na próxima eleição.

Eu voto pela mudança de governo porque acredito que podemos muito mais do que estamos apresentando hoje. E porque acredito que o candidato de oposição terá que mostrar todo esse potencial que nós temos. A guerra pessoal que ele terá que assumir, no fim das contas, será benéfica para nós. Ou ele melhora o Brasil ou o Brasil o rejeitará em 2018. E se tem uma coisa que políticos não gostam essa coisa é: perder o poder.

O preço nunca foi tão alto para um candidato. E, como estamos tão mal em praticamente todos indicadores econômicos, nunca foi tão barato apostar o nosso voto na mudança.

Vou de Aécio porque ele tem muito mais a perder do que nós. Se ele errar. nós o trocaremos, mas se ele não errar, quem sairá vencedor, não será só ele, mas também será o Brasil.

Ver é diferente de enxergar

saudadeVer, qualquer um pode, mas enxergar poucos se atrevem. Àqueles cuja visão foi lhes negada, ou furtada por qualquer que seja o motivo enxerga muito mais que supunha. Ver é uma questão física, enxergar demanda mais trabalho.

Durante a minha última semana tive a oportunidade rever muitos pontos da minha iniciante carreira médica, é claro que há ainda um longo caminho e a estrada não é tão simples de se trilhar, mas há de se considerar o caminho árduo de 11 anos e por isso, conferir alguma experiência. O SUS e todas as suas mazelas me deu muito mais do que eu dei a ele, foi pelos corredores do HC que eu senti como o sofrimento é dilacerante e quanto a impotência é pungente, mas principalmente eu entendi ali, nas escoras de ombros cansados o que é ser um ser humano.

Pelos corredores vi muita gente, dentro do consultório eu enxerguei a maioria. Enxergar um paciente é olhar além do que ele mostra, já escrevi em outra oportunidade que o corpo fala mais do que a boca, e a boca diz mais do que o corpo. Por quê? Porque as pessoas sentem e se expressam de forma distinta. Há aqueles que negam o que sentem, há aqueles exageram a dor, há aqueles que sentem dor alguma e há aqueles que entendem a exata medida da dor. Alerta a todos os sinais, o profissional de saúde se torna seu único e zeloso talismã. Recebemos muita energia dentro do consultório, de gente carregada de dor e nos suga as forças como um “dementador”, há aqueles leves, que por um segundo nos faz esquecer o que estamos fazendo ali. Médicos oncologistas sabem do que falo.

Alguns precisam que alguém entenda sua dor, aquela que vai além da física. Estar doente é incapacitante, angustiante e até vergonhoso. Entender, ouvir e se fazer ouvir é um dos grandes desafios do médico hoje, tanto do SUS quanto da rede privada, a falta de tempo, a agenda cheia sempre nos rouba o vínculo que gostaríamos de traçar, o vínculo facilita o tratamento porque ele gera confiança mútua. O laço não feito, criamos uma linha tênue que é aproveitada somente no momento em que seguramos a oportunidade do estreitamento. Aos poucos isso vai fazendo sentido mais para o médico do que para o paciente, eles precisam falar o que sentem, precisam expressar a dor, precisam que você o enxergue não como a ficha da hora, mas como a Dona Maria, Seu João, aquele que uma vez teve uma terrinha e queria voltar a viver no campo quando a vida era mais simples, aquela senhorinha que morre de saudade do netinho que mudou para outra cidade. Falar, falar, falar eis a grande válvula do corpo.

Pequenos gestos transformam todo o contexto da sua consulta médica e a forma como você conduzirá o seu paciente. Na doença (digo, doença de verdade – crônicas, as que demandam tratamento, acompanhamento) somos todos como crianças que anseiam pelo colo milagroso da mãe. Por quê colo de mãe parece aliviar nossas dores? Porque a nossa mãe deixa a gente expressar a dor, falar da dor, chorar a dor. Médico e mães acabam um pouco como ouvintes – não como psicólogos, mas um bom ouvinte, um bom companheiro que não possui verdadeiro dom de cura, mas sabe os meios para consegui-lo. Mães são um grande mistério, são mais impressionantes que a medicina.

Ver além, é também ouvir além, é arrancar confissões do que a gente nem sabia que havia para ser confessado.

Sobre família…

10679_863280410350818_6773376675876674336_nJá fazia anos que não havia meu avô, mal me recordava de sua face. Dele guardava apenas o nome. Minha esposa e filhas, ele viu apenas uma vez, elas o tinham como um estranho, assim como eu.

Receber a notícia de sua morte não me causou sentimento algum. Sim, pode soar estranho para você, um neto receber a notícia de que seu avô partira e não sentir nada. Essa foi uma escolha dele, não minha. Agora ele se foi e não precisa mais conviver com isto. Eu? Sigo meu caminho.

Naquela noite fria, em uma capela da prefeitura, reuniam-se os familiares, dos quais alguns eu já tinha perdido contato e tantos outros que nem me lembrava. Como de praxe, rodinhas eram compostas aqui e ali, com alguma conversa sobre um tema mais atual, outros remetiam o assunto ao passado, relembrando um pouco o homem que ali jazia. Risadas com primos, café, pão com mortadela.

Foi quando meu tio chegou, cumprimentou-me, apresentou-me sua esposa e filho. Estendi minha mão à esposa, devolvi um sorriso amarelo, deixando escapar “prazer, Rodrigo”. E logo depois o menino pegou em minhas mãos e disse: “bença tio”. Maravilhado com tamanha sutileza, respondi: “Deus te abençoe”. Olhei para minha esposa, espantado, que revidou com uma expressão similar à minha.

Não se houve mais este tipo de cumprimento, essa gentileza infantil e ao mesmo tempo, uma reverência aos mais velhos. Deixamos de pedir “a benção” aos nossos pais porque evoluímos. Isto é ultrapassado para nossa geração. Uma geração antenada, ligada às redes sociais e tecnologicamente muito mais desenvolvidas. Um rapaz hoje não vai à casa da moça pedir permissão para namorar, mas sim para ser apresentado como o atual namorado.

Somos a “Geração Y”. O que nos importa é uma carreira bem sucedida. É ser financeiramente estável e ter condições de comprar e ter o que quiser. E para que isto ocorra, deixamos de lado nossa família. Os filhos são vistos como investimentos pelos pais, pois se preocupam em prepará-los para o mercado de trabalho.

Enquanto isso, os filhos gritam com seus pais. O pai deixou de ser a figura de herói e agora é o irmão mais velho que tomou esse lugar. Quem me sustenta e tenta me educar – de alguma forma, mesmo errada – tornou-se um estorvo para o adolescente incompreendido. Os heróis agora estão nos corredores das escolas, os amigos e primos que possuem segredos nossos que poderia nos envergonhar, e como dizem no popular, fazer “cair a casa”.

Valores se perdendo porque terceirizamos a nossa responsabilidade de educar. Hoje exigimos que a escola cumpra o seu papel. Um sistema educacional quebrado pelo estado, onde professores cumprem o seu ofício por amor à profissão. Um sistema adaptado, não para formar pessoas, mas para ensiná-los a passar no vestibular. A babá também tem a sua parcela de culpa, pois ela deveria ter mais controle sobre a criança enquanto sua mãe tem hora marcada no salão de beleza.

A conversa foi abreviada em poucos caracteres, sejam em redes sociais ou aplicativos como whatsapp, pois os pais não têm tempo suficiente para seus filhos. O estudo, o trabalho ou o momento de descanso roubam-lhe a atenção. Ao observarmos a sociedade, em seu comportamento pelas redes sociais, posso dizer que estamos falhando em algum ponto. E de nada adianta querer extirpar os sintomas sem antes tratar a causa.

Por isso a minha surpresa e meu constrangimento com o gesto do menino. Espero que eu possa dar o melhor de mim às minhas filhas, para que elas tenham valores imbuídos em seu caráter. Que a vida é muito importante para se trocar apenas por um salário. Que ética e moral ainda são necessários para o ser humano. Que o respeito é imprescindível. Que o amor é o bem maior que podemos cultivar em relação ao próximo.

Infelizmente não chorei ao me despedir do meu avô e hoje mal me lembro de suas feições, pois nem fotos eu tenho. Mas queria eu que nossa despedida tivesse sido sim, diferente.