Carta a Jorge Solla

Jorge-SollaSenhor Deputado Jorge Solla (ok, pessoal, eu sei que ele não vai ler, e, ainda que lesse, como todo petista típico distorceria tudo. Mas, quem sabe? vai que  alguém que tenha visto o texto dele pode ter algum esclarecimento com este. E, afinal, porque é difícil ler tantas bobagens e ficar calado.)

Uma mensagem atribuída ao senhor, e que contém acusações dirigidas aos médicos, ao mesmo tempo em que pede votos para a candidata Dilma, tem sido divulgada. Tais acusações não são nada menos do que criminosas e irresponsáveis.

Não desejo reproduzir suas palavras integralmente aqui. Quem quiser, que procure a mensagem, repleta de mentiras. Mas deixo um trecho representativo: “Todas as profissões de saúde têm o dever se confrontar a coorporação médica e, com isso, defender sua autonomia, a qualidade da assistência prestada e o direito à saúde da população, votando em Dilma 13.”

É inaceitável que os médicos sejam vítimas de declarações tão sórdidas, que os foram direcionadas porque tiveram a coragem e o discernimento de criticar o atual governo, sabidamente corrupto e incompetente. Que trata a saúde da população com desprezo, já que não realizou melhorias reais no SUS. Um governo que, lamentavelmente, defende a importação de profissionais que sequer comprovaram qualificação técnica para o exercício da profissão; e que se utiliza de argumentos falaciosos para defender o indefensável. A administração do PT, na área da saúde, lançou mão (com o “Mais Médicos”) de uma medida populista para iludir as pessoas mais simples, e que ao mesmo tempo serve para enviar fortunas para uma ditadura. O descaso com a saúde é evidente. Faltam medicamentos e materiais básicos. Os hospitais públicos estão sucateados, não há leitos para internação. A qualidade do atendimento ofertado no SUS é muito desigual, em comparação com o atendimento na rede privada. Os pacientes não têm acesso a muitos tratamentos essenciais, na rede pública. É impossível fechar os olhos a esta realidade.

É gravíssimo induzir, publicamente, o pensamento de que os médicos tenham algum interesse na desassistência à população. Estes jamais seriam os objetivos de quem trata a vida com reverência. Ao contrário do partido com as mãos imundas de quem desvia dinheiro público para interesses escusos.

Quem reage de forma agressiva e antiética é o PT. Quem usa de argumentos falsos e acusa os adversários de mentiras, sem o menor pudor, é o PT. Quem age de forma irresponsável e espalha boatos sem fundamento é o PT. Qualquer um que contrarie este partido se torna alvo deste método perverso.

Os médicos não colocam  interesses mesquinhos acima da vida (se, infelizmente, existe um ínfima minoria de médicos que não respeita os preceitos éticos da nossa classe, não os utilize para nos representar, em uma generalização tão grosseira) .

Suas escolhas são  movidas pelo desejo de mudança, e lutam pela melhora urgentíssima da saúde, para todos os brasileiros. Com melhor financiamento e melhor gestão. Queremos, como cidadão brasileiros,  que todos os profissionais de saúde sejam valorizados, e que tenham condições adequadas de trabalho. Queremos que todos os pacientes tenham acesso à saúde de qualidade, e que atualmente não existe.

Parem de destilar rancor e ódio entre as pessoas. Sua mensagem tenta recrutar os demais profissionais de saúde, pedindo literalmente por um confronto com os médicos, com o único interesse de ganhar votos entre esses outros profissionais. Pois eu os vejo também em uma área de atividade muito difícil, e os respeito enormemente. Merecem (e a palavra merecimento aqui é extremamente bem aplicada) melhor remuneração e estrutura para o exercício de suas atividades. Parem de apenas usá-los quando essa cooptação é conveniente, e se esquecerem deles quando os senhores já estão acomodados no poder. Sabemos que na saúde pública todos os profissionais trabalham em condições precárias e sofrem com falta de recursos.

Parem também de incitar uma divisão odiosa entre ricos e pobres: enquanto paciente o ser humano é o mesmo. Tem as mesmas necessidades, requer os mesmos cuidados. Parem de estimular a crença tola de que profissionais sérios não desejam o bem da população carente. Vocês estão gerando e sustentando discriminação, um mal que está na raiz de confrontos seculares e violentos em todo o mundo.

Os médicos são uma classe honrada, senhor deputado. São pessoas de bem, trabalhadores. Pais, mães, filhos, irmãos. Cidadãos bem informados, com o direito e o dever de escolher nossos políticos e de expressar publicamente nossas escolhas e seus motivos dignos. Ninguém precisa ter nenhum motivo de se envergonhar em apoiar publicamente um candidato que consideram (consideramos) mais capaz e honesto. O movimento neste sentido é legítimo. E não deixará de ser apenas porque nos opomos à situação atual.

Os médicos não estão raivosos, como o senhor descreveu. Estão, muito justamente, indignados. Aliás, nós brasileiros estamos.

*

Para mais informações:
“Mais Médicos” – Por que os médicos brasileiros estão indignados?

Falácias recorrentes do PT x Fatos

1. “A máfia de branco é contra o programa ‘Mais Médicos’ porque quer fazer reserva de mercado.”
Para começar, não existe “máfia de branco”. Afinal, não somos uma organização criminosa. 
Pensar que temos receio de “reserva de mercado” é absurdo, por vários motivos. O número de médicos que vieram ao Brasil pelo programa são uma fração do número de médicos brasileiros, estimados em cerca de 400.000. O “Mais Médicos” conta, portanto, com uma porcentagem muito pequena do total de médicos no país, incapaz de gerar impacto em uma lei de oferta e procura por nossos serviços. Além disso, o governo alega que os trouxe para ficar em áreas remotas, onde os médicos brasileiros não ocuparam postos de trabalho (embora o mapa de distribuição dos intercambistas contrarie essa alegação). Essa questão de “reserva de mercado” jamais existiu para nós, quanto ao “Mais Médicos”. Mas surge de forma recorrente como argumento de quem questiona a nossa indignação. Ora, qualquer médico estrangeiro sempre pôde vir para cá, e continua podendo vir. Basta revalidar o diploma.

É um mito que a prova de revalidação seja especialmente difícil, formulada de maneira a impedir a aprovação. Ela tem um grau de dificuldade adequado ao seu fim, que é provar, em nosso idioma, conhecimentos em medicina necessários para exercer a profissão. Em 2014 a mesma prova da revalidação de diploma foi aplicada (para comparação) aos estudantes do último período do curso de Medicina da UFMG, e todos os alunos conseguiram a pontuação necessária para passar na prova (embora a prova reprove mais de 90% dos alunos formados em universidades estrangeiras, incluindo as cubanas). Todos os países exigem um processo de revalidação, e em muitos países ele é bem mais rigoroso do que aqui.

Que dificuldade é essa em aceitar que uma classe esteja genuinamente preocupada com a saúde da população, se exposta a profissionais sem competência comprovada? Tem gente que não compreende que exista quem se importe com muito mais do que apenas benefícios pessoais. Qualquer profissional sério, de qualquer área, se preocuparia ao ver serem despejados em seu país supostos colegas que nem se sabe o que estudaram. Imaginem então em uma profissão que lida com vidas.

2. “Os médicos brasileiros não querem ir para o interior ou periferias.” 
Todo mundo sabe que muitas cidades de interior, sobretudo em regiões mais remotas, não oferecem estrutura adequada para o atendimento em saúde. É extremamente desgastante para um médico atender um paciente e não conseguir oferecer a ele o mínimo necessário, e que pode até significar a vida. Além disso, não há nenhuma garantia de estabilidade no emprego. Como querer que alguém se transfira dessa maneira e para longe, com a própria família, frequentemente com filhos pequenos? Os relatos de altos salários que às vezes aparecem são uma verdadeira isca para inocentes, pois os calotes são muito comuns e o médico simplesmente deixa de receber após poucos meses. Além disso, é usual que se tenha que fazer todo tipo de atendimento (casos em adultos, crianças, gestantes; em qualquer horário, e tudo isso naquele esquema de falta de estrutura, exames e hospitais, com alto risco de processos e maus resultados por fatores que não dependem diretamente do médico).

3. “Os médicos brasileiros são playboys/filhinhos de papai/não gostam de pobre.”
Essas atribuições tentam criar uma discriminação e um falso juízo moral baseado na condição social. É verdade que as universidades brasileiras (sobretudo em cursos com dedicação integral e com longa duração) tenham uma proporção mais significativa de estudantes que vieram de famílias com maior renda. Isso não diminui o mérito de quem estudou vários anos para se formar e trabalha duramente, independente de sua origem. É um preconceito triste como qualquer outro, que julga o valor e a qualidade do trabalho de uma pessoa tendo como base sua procedência social. Julga os próprios princípios éticos dos médicos com base em sua origem. Se faltam médicos no serviço público, é por uma série de problemas complexos, e não simplesmente porque eles “não querem atender os pobres”. Parem de jogar a culpa do lado errado.

4. “Se os médicos cubanos fizessem a prova de revalidação, não ficariam no programa.”
Bem, se vocês admitem que eles não ficariam (caso passassem na prova), é porque o programa é ruim mesmo, em termos de condições de trabalho. E restringir a possibilidade de melhoria profissional (de condições de estrutura e financeiras) para forçar as pessoas a permanecer no programa é interferir na sua própria liberdade de escolha. A verdade por trás desse argumento esdrúxulo é que interessa a Cuba – em conluio com o governo brasileiro – manter seus profissionais no programa, pois a ditadura ganha muito dinheiro com ele.

5. “Os médicos brasileiros são mercenários.” (ou, como o senhor deputado falou, querem “enriquecimento rápido” e ganhar “rios de dinheiro”)
Mercenário é o profissional que trabalha apenas pelo lucro, sem se importar com as regras, ética ou princípios da profissão. Imaginem como é desanimador um médico se esforçar, prezar pela qualidade do seu trabalho, preocupar-se com o bem estar de seus pacientes, assumir grandes responsabilidades e, ainda assim, ver este tipo de acusação.
É necessário aqui dizer o óbvio, mas que parece ignorado. Médicos são seres humanos. Têm famílias. Pagam contas. Gastam dinheiro também para a manutenção do próprio trabalho. Qualquer um considera justo receber dignamente pelo fruto de seu esforço e tempo. Chega de hipocrisia e de exploração do trabalho alheio (dos médicos e dos demais profissionais da área de saúde, como enfermeiros, fisioterapeutas e outros, que sabemos que recebem muito, muito mal). Quanto aos médicos, o SUS paga cerca de dez reais para a consulta do especialista, por exemplo.

6. “A medicina cubana é avançada.”
Este é um argumento inventado, já repetido exaustivamente, mas para o qual simplesmente não há provas. O contrário é muito mais razoável, visto que Cuba é um país muito pobre e isolado de comunicações com o exterior. Já surgiram algumas poucas notícias obscuras de tratamentos cubanos “milagrosos”, cuja eficácia jamais foi comprovada e que não são publicados em jornais médicos reconhecidos.

7. “Os médicos cubanos são mais ‘humanos’.”
Essa é uma alegação infeliz. Consideremos, antes de tudo, que há evidências muito fortes de que falta qualificação técnica para os cubanos. Já foram coletadas muitas receitas com prescrições erradas, às vezes até letais, de medicamentos básicos. Mostram erros tão, tão primários que nos levam a duvidar que quem as escreveu tenha algum conhecimento em medicina. O que é reforçado pelo fato de que os supostos médicos cubanos têm uma taxa altíssima de reprovação no exame de revalidação do diploma. Na prova de 2013 apenas 9% dos cubanos que fizeram a prova do revalida em Minas Gerais foram aprovados. 
Daí o governo lança mão do argumento da “humanidade”, com a intenção de enganar os cidadãos mais simples, e revelando o intuito populista e eleitoreiro da medida. Infelizmente, as pessoas menos instruídas não conseguem, às vezes, questionar a capacidade técnica real dos supostos médicos, e podem ser iludidas com a atenção que receberam, ainda que não tenham tido o tratamento correto… Isso é muito triste! Curioso que a alegação de “humanidade” veio da própria Dilma, que difamou os médicos brasileiros, mas *faz questão* de se tratar apenas com os tais médicos brasileiros, em hospitais particulares.

*Texto feito em comum com o médico Dr. Luis Alfredo Ribeiro – médico cirurgião geral.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s