Ver é diferente de enxergar

saudadeVer, qualquer um pode, mas enxergar poucos se atrevem. Àqueles cuja visão foi lhes negada, ou furtada por qualquer que seja o motivo enxerga muito mais que supunha. Ver é uma questão física, enxergar demanda mais trabalho.

Durante a minha última semana tive a oportunidade rever muitos pontos da minha iniciante carreira médica, é claro que há ainda um longo caminho e a estrada não é tão simples de se trilhar, mas há de se considerar o caminho árduo de 11 anos e por isso, conferir alguma experiência. O SUS e todas as suas mazelas me deu muito mais do que eu dei a ele, foi pelos corredores do HC que eu senti como o sofrimento é dilacerante e quanto a impotência é pungente, mas principalmente eu entendi ali, nas escoras de ombros cansados o que é ser um ser humano.

Pelos corredores vi muita gente, dentro do consultório eu enxerguei a maioria. Enxergar um paciente é olhar além do que ele mostra, já escrevi em outra oportunidade que o corpo fala mais do que a boca, e a boca diz mais do que o corpo. Por quê? Porque as pessoas sentem e se expressam de forma distinta. Há aqueles que negam o que sentem, há aqueles exageram a dor, há aqueles que sentem dor alguma e há aqueles que entendem a exata medida da dor. Alerta a todos os sinais, o profissional de saúde se torna seu único e zeloso talismã. Recebemos muita energia dentro do consultório, de gente carregada de dor e nos suga as forças como um “dementador”, há aqueles leves, que por um segundo nos faz esquecer o que estamos fazendo ali. Médicos oncologistas sabem do que falo.

Alguns precisam que alguém entenda sua dor, aquela que vai além da física. Estar doente é incapacitante, angustiante e até vergonhoso. Entender, ouvir e se fazer ouvir é um dos grandes desafios do médico hoje, tanto do SUS quanto da rede privada, a falta de tempo, a agenda cheia sempre nos rouba o vínculo que gostaríamos de traçar, o vínculo facilita o tratamento porque ele gera confiança mútua. O laço não feito, criamos uma linha tênue que é aproveitada somente no momento em que seguramos a oportunidade do estreitamento. Aos poucos isso vai fazendo sentido mais para o médico do que para o paciente, eles precisam falar o que sentem, precisam expressar a dor, precisam que você o enxergue não como a ficha da hora, mas como a Dona Maria, Seu João, aquele que uma vez teve uma terrinha e queria voltar a viver no campo quando a vida era mais simples, aquela senhorinha que morre de saudade do netinho que mudou para outra cidade. Falar, falar, falar eis a grande válvula do corpo.

Pequenos gestos transformam todo o contexto da sua consulta médica e a forma como você conduzirá o seu paciente. Na doença (digo, doença de verdade – crônicas, as que demandam tratamento, acompanhamento) somos todos como crianças que anseiam pelo colo milagroso da mãe. Por quê colo de mãe parece aliviar nossas dores? Porque a nossa mãe deixa a gente expressar a dor, falar da dor, chorar a dor. Médico e mães acabam um pouco como ouvintes – não como psicólogos, mas um bom ouvinte, um bom companheiro que não possui verdadeiro dom de cura, mas sabe os meios para consegui-lo. Mães são um grande mistério, são mais impressionantes que a medicina.

Ver além, é também ouvir além, é arrancar confissões do que a gente nem sabia que havia para ser confessado.

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Tempos mortos

olhos_vendadosParece que a moda agora é torcer pelo fracasso, para que o músico perca o compasso, para que sejamos vencidos pelo cansaço. Parece que a moda é apunhalar enquanto se recebe um abraço, espremer até que só sobre o bagaço, torcer para que dê errado o truque do bom e velho palhaço. Vivemos esperando a vitória do bandido, como se a culpa fosse sempre do agredido, como se a traição fosse responsabilidade da outra, nunca do marido.

Parece que são tempos de maldade, onde todo mundo torce contra qualquer novidade, como se fosse um pecado cuidar da nossa cidade. São tempos de ciclista na contramão, lixo jogado no chão, motoristas que sempre se acham os donos da razão. Tempos de mão na buzina, de se acostumar aos assaltos em toda esquina, de barbaridades no noticiário encaradas como rotina. São tempos apressados, de poucos cuidados, de ficar cego para os direitos de quem está do seu lado.

Deixamos de agradecer, deixamos de acolher, deixamos de tentar entender. Só pensamos no que vamos perder, no que deixamos de ter, em precisar parecer. Deixamos de nos olhar, deixamos de amar, deixamos de procurar ajudar e nos ajudar. O que importa é quanto vamos ganhar, quantas fotos a gente vai conseguir postar, quantas invejas a gente vai conseguir despertar. Deixamos de nos importar, deixamos de ouvir, esperamos ansiosos a hora do outro cair.

Vivemos em torno do acidente, julgando quem a gente julga diferente, abrindo os olhos de manhã já impacientes. Seguimos atravessando a rua para não passar pelo indigente, torcendo pela morte do político doente, pela falência de quem, aos nossos olhos, ficou rico de repente. Vivemos como espectadores de uma luta na arena, querendo sangue, querendo cena, torcendo para que no fim da batalha só nos reste sentir pena. Vivemos com valores tortos, vivemos mergulhados em tempos mortos.

O sentido dos sentidos

(23) Cegueira oculta (1)Os cinco sentidos que possuímos são mais importantes do que pensamos, aprendemos sobre eles já na infância, nas primeiras aulas de ciências. São eles: Tato, visão, olfato, audição e paladar. Esses “sentidos” são assim chamados por estarem ligados ao cérebro com áreas responsáveis pela sensibilidade, principalmente. Esses sentidos têm funções importantes de tempo e espaço, além de uma importante função de proteção. O cérebro recebe a informação e responde ao estímulo, por exemplo, ao encostarmos em alguma superfície muito quente, logo entendemos que poderemos nos queimar e por isso nos afastamos, essa informação é processada rapidamente no cérebro e este nos alerta. Assim como o gosto dos alimentos, através da língua e suas papilas gustativas trocamos informações com o cérebro conseguindo assim, identificar e diferenciar gostos como doce, salgado, amargo, ácido e picante (embora essas duas últimas sensações não sejam sentidas na língua e sim, na mucosa bucal.

Os sentidos são informações importantes que nos torna também seres sociais. Com eles enxergamos o mundo, conseguimos nos expressar, comunicar e absorver aquilo que precisamos para que haja troca. Na minha prática médica os sentidos também são muito importantes, a qualidade da resposta deles e sua avaliação são fortes indicadores de uma série de doenças de origem neurológica, eles também nos ajudam no tratamento.

Dias atrás enquanto passava uma mini palestra sobre como avaliar as questões neurológicas de um paciente com deficiência visual pós ressecção de um tumor, um aluno perguntou a mim como os cegos sonham, como o subconsciente trabalha no cenário onde não existem imagens. A questão não é tão complicada de se imaginar, acontece que os sonhos são tão naturais para nós que poucas vezes nos perguntamos como é o sonho de alguém, como ele se projeta e como ele ocorre. Sonhar é gostoso e muito saudável, ele funciona como um banco de dados do nosso cérebro, é importante para nosso processo de aprendizado e transforma a memória curta em memória de longa duração.

Nossos sonhos acontecem no sono REM – Período do sono que a atividade cerebral é semelhante à vigília e são compostos de elementos que nossos cinco sentidos capturam durante o dia e armazenam no nosso subconsciente, esses elementos se embaralharam e por algum motivo vêm à tona nos nossos sonhos. É comum dizermos frases do tipo: “Não sei por quê sonhei com fulano, não estava nem pensando nele” – será que não? será que em algum momento do dia não lembrou da pessoa? nosso cérebro processa tão rápido alguns pensamentos que muitas vezes nem mesmo nós nos damos conta. Alguns psiquiatras e psicólogos acreditam que os desejos e acontecimentos que o inconsciente reprime também são expressos em imagens no sonho, Freud foi um grande estudador dos sonhos tendo publicado dois volumes de “A interpretação dos sonhos” que é utilizado e lido até hoje. Os sonhos também possuem explicações do ponto de vista religioso, cada uma tem uma interpretação segundo suas doutrinas, mas todas convergem em uníssona opinião: Os sonhos nos ajudam a compor uma parte daquilo que somos, uma vez que nosso objeto sonhado é fruto de nós mesmos.

Voltando ao assunto trazido pelo estudante e baseado em tudo dito até aqui, como é a formação visual de uma pessoa que tem deficiência visual? Como os sentidos dessa pessoa armazenam dados para transformar em sonhos? Por que, sim, eles sonham. Os cegos possuem os sentidos muito aguçados, na falta do visual, eles usam muito o tato e a audição como senso de direção e alerta cerebral em alguma situação de perigo. O olfato do cego é também bastante apurado, e o cheiro tem uma importante função, ele é um grande estímulo sensorial capaz de nos fazer viajar no tempo, reter lembranças. Todos nós temos guardados na memória o cheirinho da infância, ou cheiro do perfume daquela pessoa especial. Sentir o cheiro é trazer o momento de volta. Isso me faz refletir sobre a fisiologia do nosso sistema límbico e do circuito ou formação de Papez. O circuito é atribuído à Papez, descrito em 1937 e formado por algumas estruturas do nosso sistema nervoso central que estão diretamente envolvidas em experiências emocionais e entre elas destacam-se o hipocampo e amígdala, ambos localizados no nosso lobo temporal, assim como o giro do cíngulo, tálamo e hipotálamo. Uma vez recebendo informações sensoriais, como por exemplo um estímulo olfativo, somos capazes de resgatar fácil e surpreendentemente na nossa formação hipocampal do lobo temporal do nosso cérebro, experiências passadas armazenadas como memória de longo prazo com riqueza de detalhes. No sonho do cego, esse é um elemento muito importante porque ele é capaz de transformar objetos sensoriais em memórias para composição dos sonhos. No sonho de quem enxerga quase não temos detalhes como textura, odores ou paladar simplesmente porque não precisamos desses sentidos para interagir diretamente com o mundo. Quem enxerga recebe um número infinitamente maior de memória visual durante o dia: Alguém na rua que estava vestido de forma engraçada, um sorriso marcante, uma imagem na TV, etc… O cego tem a percepção do dia bem diferente, ele se guia pelo que sente: um cheiro, uma voz, o toque de alguém conhecido que o conduz. Estima-se que 70% do sonho dos cegos de nascença seja de informações auditivas, que é o sentido mais evidente, como se fosse a visão daquele que enxerga.

Eu particularmente, acho o sonho dos cegos muito mais ricos em detalhes, fruto de sentidos mais aguçados, porquanto nós que preservamos a atividade visual, acabamos negligenciando demais sentidos. Para a curiosidade, achei um texto antigo que relata sonhos de pessoas que nasceram ou perderam a visão, eles relatam como são os seus sonhos e nos dá uma maior clareza sobre tudo o que foi dito aqui (bengala legal). O assunto é interessante e vale a pena pensar sobre o quão importantes são nossos sentidos, aguçá-los e estimulá-los é ganhar novos elementos e novas formas de enxergar o mundo, por quê não? Comece pelo paladar, reúna amigos, vende os olhos e tente identificar os alimentos apenas pelo gosto. Não é tão fácil quanto parece .

 

 

Do império Romano ao império financeiro

imagesCaio Julio César (em latim: Caius Iulius Caesar) foi líder militar e governante romano. Em 62 a.C., Pompeia, esposa de César, realizou um festival em homenagem a Bona Dea (“boa deusa”),  no qual homem nenhum poderia participar, em sua casa. Porém, um jovem chamado Públio Clódio Pulcro conseguiu entrar disfarçado de mulher, aparentemente com o objetivo de seduzi-la. Ele foi pego e processado por sacrilégio. César não apresentou nenhuma evidência contra Clódio no julgamento e ele acabou inocentado. Mesmo assim, o Imperador romano se divorciou de Pompeia, afirmando que “minha esposa não deve estar nem sob suspeita”.
 Dia 16 de setembro de 2014 d.C.,  realiza-se, com pompa e cerimonial, em uma das palacianas salas do Banco do Brasil, a primeira reunião plenária, em seu novo modelo, da Gerência de Project Finance & Structured Loans (em latim Project Rebus Oeconomicis et Mutuum Exstructa) comandada pelo seu Exsecutiva Procurator, Marsius Jiannycus.
 Ao longo da explanação o Exsecutiva Procurator (em português de Trás-os-Montes, Gerente Executivo) discorreu, devagar, sobre a Missão, Visão de Futuro, Metas, Objetivos, Atributos, Modelos e outras “jujubinhas” da estratégica  Gerência do Império Financeiro BB, aquele mesmo que o treinador de gladiadores da segunda divisão do Exército Romano,  Philipus Scolarius, chamou  “Recreio de Trabalhadores”.
 Após a apresentação do Executivo (lembrando sempre da versão trasmontense da patente)  a reunião foi aberta para dúvidas e discussões. Em razão de a maioria dos participantes nem terem chegado ao estágio da dúvida, foram abertos os debates e feitas outras colocações por alguns membros de maiores… patentes (levaram um susto, hein?).
 O recém-empossado Chefe de Divisão, o ex-oficial global Heduardus,  lembrou a todos os presentes a importância de aquela nova Unidade além de atuar, como de fato atua, de forma correta e ética, também deve se mostrar , de forma clara e inequívoca, para os seus públicos internos e externos, essa mesma postura séria e comprometida.
 Para ilustrar sua fala, Heduardus lembrou da máxima: “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”!!! Estupefata e indignada uma das participantes do encontro, quis logo saber de seus pares mais impares, se o César trabalhava na Direção Geral  ou em alguma agência, interna ou externa, quiçá de Roma ou do bairro da Pompéia, do Banco do Brasil! E, mais, se “essazinha tal” esposa dele era também funcionária daquela “milenar” e respeitável Instituição Financeira.

Reconhecendo a fé

972966_712747762147965_159003240_n“Tem coragem e conserva a fé naquilo que crês. Nada é mais recomendável do que crer, até no caso de estar oculta a razão de por que isso ser assim e não de outro modo.” É com essa simplicidade confortante que Santo Agostinho consegue conversar com o seu coração, de um modo que talvez seja o momento em que ele esteja mais desejoso desse conforto.

Registrou-se num amplo estudo que a proporção de cristãos no mundo caiu de 35% para 32% nos últimos cem anos, sobretudo na América e Europa, regiões onde tradicionalmente o cristianismo demonstra maior força, enquanto que na África, houve um crescimento de 9% para 63%, se você considerar de 1910 a 2010.

Conforme a humanidade descobre outros caminhos, inclusive a partir de uma aproximação cada vez mais real entre os povos, a complexidade da percepção de tudo que envolve a vida humana acaba por oferecer a cada momento um novo questionamento. Desde o início de tudo que conhecemos, são as perguntas que movem e transformam o mundo, as repostas sempre são insuficientes.

O maior teólogo (e também filósofo) do cristianismo no ocidente é também nascido na África, Santo Agostinho devotou toda a sua filosofia para a sabedoria em Deus. Mesmo com o império romano em decadência no Ocidente, Agostinho foi o responsável pela cunhagem do termo tão difundido que é “Igreja Católica”, assim como o termo, apesar de uma queda notável em detrimento do crescimento populacional, o cristianismo globalizou-se mais, espalhou-se mais pelo mundo.

Em semelhante conversa como em “Diálogo no Inferno entre Maquiavel e Montesquieu”, Agostinho e seu contemporâneo Evódio, desenvolvem uma reflexão moral de amparo ao longo de toda a discussão. Então Agostinho aconselha: “não te entristeças, mas ao contrário te alegres e muito, pelo fato de que prefiras existir, mesmo infeliz, deixar de ser infeliz, por não mais existires. Com efeito, se a partir desse “querer-ser” inicial cresces, mais e mais, no amor ao ser, elevarás o templo de tua alma em direção ao Ser supremo. Assim, tu te preservarás de toda queda…”

A mensagem é um meio concreto quando encontra receptividade aberta, e desse modo, por meio de uma mensagem, restaurei a fé cristã. Buscar Deus em momentos críticos não é crença real, é fruto do desespero, contudo, essas angústias servem para uma reflexão, tal qual nos ensina Agostinho, sobre o que você precisa e busca inconscientemente para acariciar sua alma.

O que está fora de mim não precisa crer na intensidade do que eu sinto e isso jamais irá ocorrer, não é possível. Mas a dor da quase perda me fez sentir como se eu estivesse a procurar incansavelmente aliviar tudo aquilo que se transporta em dor real.

A dor da perda te faz entender que nada mais pode ser feito e não há outro caminho que não seja reconhecer a força da morte. Mas estar ali, na angustia da iminente perda que não te permite uma conformação definitiva, me parece ainda mais doloroso. Sendo que você sofre pelo que pode se concretizar, pelo que você não pode fazer para mudar isso e sofre com o mais forte desejo de mudar aquela situação.

Mas quando minha alma mais precisou de ajuda em toda a minha vida, de uma forma incrivelmente esperançosa alguém usou a mensagem para lembrar meu coração de que nós nãos estamos sozinhos e que em algum momento aquela dor insistente irá deixar você.

“Confie no Senhor de todo o coração e não se apoie em sua própria inteligência. Lembre-se de Deus em tudo que fizer, e ele lhe mostrará o caminho certo”. (Provérbios 3.5-6)

Tudo mudou a partir desse momento, a partir de então toda a fé na vida começou a ser o meu maior desejo e acabou dando tudo certo. Exatamente como eu tanto pedi. Deus, de uma forma ou de outra, acabou por me mostrar que a minha fé forte e honesta, resultou no alívio da minha dor e na retomada brilhante da vida por quem tanto pedi e tanto temi como nunca.

Diante do ‘abraço’ que aqueceu o frio daquela dor, toda a fé permaneceu como prova de gratidão, a mais sincera gratidão da vida. A fé necessita de honestidade, Deus sempre saberá se o seu coração de fato crê ou não, é preciso ser verdadeiro em todas as coisas, em toda a sua vida.

“Não deveria haver fronteiras ao esforço humano, por pior que a vida pareça, enquanto houver vida, haverá esperança”. (Stephen Hawking)

Autor convidado – Jéssica Diniz – Jornalista