Ouro de tolo

imagesOnde estive, enquanto inúteis verões passavam por mim?
Sim, verões como este, que hoje arde lá fora e forja vida;
Que fabrica paixões e emprega a todos de esperança?
Essa gente que rasga o peito apenas pra que entre a luz.
Quem são eles? Talvez sejam apenas tolos assumidos…
 
Onde andei, enquanto o mar coloriu-se de turquesa assim?
Sim, mar em que poderia purificar-me de toda insana lida;
Que banha o corpo e inunda de paz a quem nele se lança?
Essa gente que segue por aí, alegre e dourada, que seduz.
Quem são eles? Talvez sejam apenas tolos envaidecidos…
 
Aonde fui, enquanto o sol esmaecia em laranja e carmim?
Sim, em tons que prenunciam a cura de todas as feridas;
Que liberam o sonho e convidam pra uma nova dança?
Dessa gente que baila solta no brilho; que não se reduz.
Quem são eles? Talvez sejam apenas todos agradecidos…
 
Onde fiquei, enquanto a lua prateava os campos e jardins?
Sim, luar que evoca o amor pelas pessoas mais queridas;
Que liberta da sombra e expande o que a visão alcança
nessa gente que não teme a hora e tira da noite seu capuz.
Quem são eles? Talvez sejam apenas tolos convencidos…
 
Pois eu estive no futuro que pensei ter o cheiro do alecrim.
Andei por uma trilha encantada que hoje sei não ter saída;
Fui tenaz amadora e confiei, como só confiam as crianças.
Fiquei! Até saber que nem sempre é ouro tudo o que reluz.
Quem sou eu? Apenas uma tola, agora mais envelhecida…
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O topo da cidade

10547673_1519240901645068_7556005617465442628_nDo topo desta cidade estranha e alheia ao meu jeito de ser
Percebo que talvez jamais pertença a cidade alguma
Solto no ar meu querer e só sei que não quero esta cidade
Também não quero mais aquela outra com que tanto sonhei
Onde imaginei viver a calma do fim, assim, de forma banal
 
Porque é próprio do final simplesmente não mais querer ter
Ou ser toda e qualquer coisa que já não seja apenas uma
No final, já nem mais lembramos as velhas obscenidades
O verbo conjugado apenas no tempo passado do que amei
A confiar que a vida esvaia-se rápida e sem qualquer sinal
 
No topo desta cidade perambulo pela casa à toa, sem prazer
Ajeito quadros; rego e podo plantas, envolta em bruma
Não quero escrever, ouvir música ou falar de amenidades
A balança informa que se foi um pouco mais do que pesei
Comer talvez fosse praticar um gesto perto do normal
 
Porque são próprias do normal as coisas estão que estão por fazer
E pego um livro, quando quero que toda literatura suma
Se tudo o que já foi escrito não passa de ficção ou vaidade
A televisão me agride e afronta tanto! Quase quebrei
Dormir de dia, por certo, é um convite ao baixo astral
 
No topo desta cidade, sinto que só preciso escrever
Ainda que seja para ordenar a bagunça que a cabeça arruma
Enquanto arrumo a casa, a mente se perde em insanidades
Olho pela janela e a tarde me convida: hoje não caminhei
Mas não vou andar sem vontade e tento ser natural
 
Porque, na janela, o Cristo e o Pão de Açúcar podem me ver
E dizer uma novidade qualquer, melhor do que nenhuma
Quem sabe, aonde devo ir, onde o futuro, onde é a cidade?
Ah, nem sei por que me perco assim, se jamais me achei
E se tudo que tenho de mais certo é uma incerteza brutal.

Imagem

mulher reflexoNão quero olhar para você, assim,
A me dizer que eu sou o que eu não quero.
Saia do meu bom dia, da minha frente.
Arranje o que fazer; procure sua gente.
Ah, quantas vezes vou ter que lhe dizer
que eu não sou nem serei você. Jamais!
O que você reflete em distorcidas linhas
revela a sua forma, só sua, não a minha.
E nem me diga que seria meu natural, ou
o fruto inexorável do passar dos anos.
Não diga nada porque não quero ouvir
nada de um ser, assim, tão antinatural.
 
Mas, afinal de contas, quem é você?
Com que direito invade meu espaço,
assim, a minha paz e, diria ainda mais,
meu jeito de ser, minha legitimidade ?
Quem é você, com esses olhos tristes?
Quem, com esse rosto de quem sofreu
tanto e, ao que parece, nada aprendeu?
Quem, com esse ar de altiva senhora?
Aliás, senhora, não. Você já é história!
Olha, minha cara, vou lhe dar um conselho:
saia bem rápido, bem rápida, do meu espelho.
Por quê? Porque jamais terei a sua idade.