Sobre família…

10679_863280410350818_6773376675876674336_nJá fazia anos que não havia meu avô, mal me recordava de sua face. Dele guardava apenas o nome. Minha esposa e filhas, ele viu apenas uma vez, elas o tinham como um estranho, assim como eu.

Receber a notícia de sua morte não me causou sentimento algum. Sim, pode soar estranho para você, um neto receber a notícia de que seu avô partira e não sentir nada. Essa foi uma escolha dele, não minha. Agora ele se foi e não precisa mais conviver com isto. Eu? Sigo meu caminho.

Naquela noite fria, em uma capela da prefeitura, reuniam-se os familiares, dos quais alguns eu já tinha perdido contato e tantos outros que nem me lembrava. Como de praxe, rodinhas eram compostas aqui e ali, com alguma conversa sobre um tema mais atual, outros remetiam o assunto ao passado, relembrando um pouco o homem que ali jazia. Risadas com primos, café, pão com mortadela.

Foi quando meu tio chegou, cumprimentou-me, apresentou-me sua esposa e filho. Estendi minha mão à esposa, devolvi um sorriso amarelo, deixando escapar “prazer, Rodrigo”. E logo depois o menino pegou em minhas mãos e disse: “bença tio”. Maravilhado com tamanha sutileza, respondi: “Deus te abençoe”. Olhei para minha esposa, espantado, que revidou com uma expressão similar à minha.

Não se houve mais este tipo de cumprimento, essa gentileza infantil e ao mesmo tempo, uma reverência aos mais velhos. Deixamos de pedir “a benção” aos nossos pais porque evoluímos. Isto é ultrapassado para nossa geração. Uma geração antenada, ligada às redes sociais e tecnologicamente muito mais desenvolvidas. Um rapaz hoje não vai à casa da moça pedir permissão para namorar, mas sim para ser apresentado como o atual namorado.

Somos a “Geração Y”. O que nos importa é uma carreira bem sucedida. É ser financeiramente estável e ter condições de comprar e ter o que quiser. E para que isto ocorra, deixamos de lado nossa família. Os filhos são vistos como investimentos pelos pais, pois se preocupam em prepará-los para o mercado de trabalho.

Enquanto isso, os filhos gritam com seus pais. O pai deixou de ser a figura de herói e agora é o irmão mais velho que tomou esse lugar. Quem me sustenta e tenta me educar – de alguma forma, mesmo errada – tornou-se um estorvo para o adolescente incompreendido. Os heróis agora estão nos corredores das escolas, os amigos e primos que possuem segredos nossos que poderia nos envergonhar, e como dizem no popular, fazer “cair a casa”.

Valores se perdendo porque terceirizamos a nossa responsabilidade de educar. Hoje exigimos que a escola cumpra o seu papel. Um sistema educacional quebrado pelo estado, onde professores cumprem o seu ofício por amor à profissão. Um sistema adaptado, não para formar pessoas, mas para ensiná-los a passar no vestibular. A babá também tem a sua parcela de culpa, pois ela deveria ter mais controle sobre a criança enquanto sua mãe tem hora marcada no salão de beleza.

A conversa foi abreviada em poucos caracteres, sejam em redes sociais ou aplicativos como whatsapp, pois os pais não têm tempo suficiente para seus filhos. O estudo, o trabalho ou o momento de descanso roubam-lhe a atenção. Ao observarmos a sociedade, em seu comportamento pelas redes sociais, posso dizer que estamos falhando em algum ponto. E de nada adianta querer extirpar os sintomas sem antes tratar a causa.

Por isso a minha surpresa e meu constrangimento com o gesto do menino. Espero que eu possa dar o melhor de mim às minhas filhas, para que elas tenham valores imbuídos em seu caráter. Que a vida é muito importante para se trocar apenas por um salário. Que ética e moral ainda são necessários para o ser humano. Que o respeito é imprescindível. Que o amor é o bem maior que podemos cultivar em relação ao próximo.

Infelizmente não chorei ao me despedir do meu avô e hoje mal me lembro de suas feições, pois nem fotos eu tenho. Mas queria eu que nossa despedida tivesse sido sim, diferente.

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Nossas diferenças…

10703639_854952487850277_6298623721950831980_nQuando conversamos sobre casamento, acreditamos que ele só é válido mediante a aprovação da legislação – o que chamamos de papel passado – ou então quando se passa pelo crivo da instituição religiosa, simbolizado pelo sacerdote e convidados, seguidos de uma festa. Se observarmos atentamente, um casal não necessita destes dois requisitos acima para unir-se, basta apenas um sentimento de afetividade recíproco para que isto ocorra. Quando duas pessoas tomam a decisão de viverem como um casal, já estão casados, independente da papelada.

Com isto em mente, digo que acho desnecessária esta luta que existe contra a união de pessoas do mesmo sexo, tão latente nos últimos dias e que ganhou maior volume com as declarações do candidato à presidência, o senhor Levy Fidelix. E engana-se quem pense que tecerei algum comentário sobre suas declarações no debate apresentado dia 28 de setembro, transmitido pela Rede Record de Televisão. Querem lutar contra algo que na sua prática, já existe!

A razão primeira daqueles que são contra uma legislação que reconheça a união é a luta pela conservação da família. E isto, acompanhado de argumentações rasas de cunho religioso. Destas discordâncias de ideias, nasce um embate – mais acentuado – entre evangélicos contra o restante da sociedade que, a meu ver, já entendeu como verdade a introdução que apresentei para o meu texto. Eu mesmo já rompi com meus familiares por haver discriminação, em defesa dos bons costumes e da condenação da prática homossexual.

Diante disto eu me questiono quais bons costumes precisam de defesa quando o modelo tradicional de família – como conhecemos – na grande maioria das vezes, já está deteriorado? Em tempos que as relações se estendem apenas a curtidas, follows e compartilhamento de status, o que realmente estamos defendendo? O que realmente defendemos é nosso egoísmo.

Qualquer humano que frequente uma igreja sabe que Deus nos reservou a prerrogativa do livre-arbítrio, bem como a prestação de contas de nossas atitudes de maneira individual. Diante de Deus, cada um responde por si. Nenhum esforço que eu faça pode justificar ou amenizar o que há por vir quando a escolha foi sua. E não, não estou dizendo que ser ou não homossexual é errado. Busco esclarecer apenas.

Nosso egoísmo é tamanho que buscamos negar direitos inerentes ao ser humano, travestido de uma santidade deturpada. Sequestramos o discurso bíblico e fazemos dele a nossa verdade quando nem mesmo Deus obriga o ser humano a segui-lo. Quem decide é você, não Ele.

Outro assunto que parece que não entra na cabeça das pessoas, um estado laico não quer dizer o mesmo que um estado ateu. Eu devolver direitos inerentes ao ser humano não quer dizer que eu negue a existência divina. E para o outro lado a mesma coisa, não é preciso eu negar a existência divina para que possa brigar pelos meus interesses. Enxergo uma burrice absurda aqui. Questionamos a existência ou não de Deus, pela avaliação que fazemos dos homens. Ora, já está claro que Deus nada tem a ver com tantas atrocidades que a humanidade comete. E se Ele existe, por que permite? Oras, porque Ele não obriga o homem a nada.

André Comte-Sponville, filósofo materialista, é meu principal modelo de ateísmo que existe. Coleciono quase todas as suas obras e não o vejo perder tempo tentando provar a inexistência de um criador. Ele não acredita e ponto. No entanto, é possível ele usar citações dos Evangelhos e até tecer alguns comentários sobre de Deus, sem a necessidade de atacá-lo ou de diminuir o seu poder. Se possível, aprendam com ele.

Se me perguntam se sou a favor da união estável? Claro que sou. Sou a favor de que o ser humano tenha os seus direitos respeitados, principalmente como cidadão. Com direito a heranças, adoções e tudo o mais que outro ser humano de orientação sexual contrária tem. Sou a favor da igualdade, em sua totalidade. “Se eu tentar obrigar as pessoas a seguirem os preceitos bíblicos apenas, eu seria antiético e imoral”, – diz meu amigo Jailson de Souza.

Somos defensores da moral, mas que o cerne desta moral seja a compaixão ou então podemos deixar de lado a máxima de Jesus que diz: “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Se eu não tratar o outro como gostaria de ser tratado, isto não me faz santo e nem melhor diante de nosso Criador, só me faz um pobre coitado que não consegue observar um dos seus principais ensinamentos.

Sem rótulos

1932301_10203292903183675_1815845435658188216_nEm uma quinta-feira qualquer você me liga perto das nove horas da noite, querendo me ver para saber como está indo a semana. Eu sei que, assim como as outras, essa é mais uma das suas desculpas que começa com conversas e termina entre lençóis.

Sem concordar muito com os estereótipos dos relacionamentos hoje em dia, sei que o nosso ninguém iria entender. Uma relação livre, sem rótulos, sem tanto compromisso e uma cumplicidade leal que causa inveja em muitos casais. Não que os seus amigos ou a minha família concorde com o nosso compromisso, aliás, em você encontrei um comprometimento com a felicidade que não vi em nenhum namorado que já tive.

Você chega com um sorriso meio torto com receio de bater na porta, eu te observo no olho mágico. Te recebo de maneira quase discreta para disfarça minha alegria ao querer me ver no meio da semana. Já seu olhar não esconde a tentação que há entre nós dois em um apartamento e um vinho repleto de boas intenções.

Antes de amanhecer o dia por completo, a gente entende quando Cazuza diz que estamos, meu bem, por um triz pro dia nascer feliz. Você se despede avisando que voltará qualquer dia desses, eu te respondo que ficamos de visitar aquele barzinho recém inaugurado, você se anima e eu te abraço em despedida.

Não há o que se queixar da noite passada, além de ficar uma saudade que me visita de vez em quando. Logo se evanesce ao lembrar que temos uma relação repleta de muitas risadas, um vinho por acabar e beijos selados a nenhuma promessa de amor eterno. Apenas promessas de viver um amor naquele com compromisso de sermos felizes.

Um amor gris

10672419_10203184490153417_3908538001061866544_nEnquanto a chuva cai lá fora e o frio quase toma conta de mim por completo, eu escuto Djavan cantando e me aconselhando a ler um livro. Mas, como ele mesmo me diz, meu pensamento está em você. Apesar de toda cena poética, não me sinto feliz em fazer parte. Preferia um final feliz a essa dúvida que me consome. Aquele último olhar que trocamos em que nada foi dito, tudo foi deixado nas entrelinhas. E nas tentativas de interpretar a sua partida ou incerteza de permanecer, eu fico com a esperança de tudo que vivemos ter te tocado de alguma maneira. Aquela velha esperança de que o outro também sinta o mesmo fervor da paixão. O café já não está mais tão quente e nem me lembro do meu cigarro. Tudo me divide quando penso em você. Aquele seu sorriso bobo, meio sem jeito, com medo de se mostrar para a vida. A verdade é que eu preciso de um bom abraço para me aconchegar e esconder desse frio e da realidade lá fora. Quem sabe, um dia, o amanhã seja mais belo e o nosso amor mais colorido do que essas minhas dúvidas que deixam gris a nossa história.

Lembrança boa de você

meninaSentada em um banco desses de uma praça qualquer, com frio, eu me lembro de você. Na verdade, eu me lembro de nós ao ver um casal de velhinhos juntos andando de mãos dadas. Queria esquecer tantas coisas que vivemos juntos, mas ainda há um filme em minha mente.

Tantas promessas, em vão. Foi o que eu ouvi da minha mãe ao saber que a gente terminou. Sabe, no início, eu dei razão a ela. Seu sorriso e aquele olhar de cachorrinho pidão nas várias vezes em que falava do nosso futuro para depois se dissolveram em palavras levadas ao vento.

Hoje, eu não sinto mais raiva por você partir. O nosso romance foi lindo. No entanto, acabou. Ficaram as lembranças e a certeza de que eu vivi uma bela história de amor com você. Ainda que o final não tenha sido o tal de “felizes para sempre”, eu fui feliz em grande parte da nossa história.

Tenha a certeza que nunca deixarei de lado a Nutella com torrada no café da manhã e nem de ouvir Beatles em um belo domingo à tarde, pois algumas manias e referências me fizeram bem. No entanto, a raiva que tinha quando eu escutava There are place I remember all my life foi cessada. A música é linda e faz parte do que vivemos.

Espero que esteja feliz com suas escolhas. Eu ainda estou trilhando o caminho dos meus sonhos. Andando na velha linha tênue de viver o presente, lutar pelo futuro e saudar o passado. Passado este que você escreveu junto comigo um dos mais belos capítulos em minha vida.